“Depois de sonhar tantos anos, de fazer tantos planos de um futuro pra nós, depois de tantos desenganos, nós nos abandonamos como tantos casais. Quero que você seja feliz, hei de ser feliz também. Depois de varar madrugada esperando por nada, de arrastar-me no chão em vão, tu viraste-me as costas, não me deu as respostas que eu preciso escutar. Quero que você seja melhor, hei de ser melhor também. Nós dois já tivemos momentos, mas passou nosso tempo, não podemos negar, foi bom. Nós fizemos histórias pra ficar na memória e nos acompanhar. Quero que você viva sem mim, eu vou conseguir também. Depois de aceitarmos os fatos, vou trocar seus retratos pelos de um outro alguém. Meu bem, vamos ter liberdade para amar à vontade, sem trair mais ninguém. Quero que você seja feliz, hei de ser feliz também… depois!”
“Eu já estudei muito para saber que isso não vale a pena”, ele me disse e eu bêbada, caindo aos pedaços, juntando o que não tinha para conseguir mais tequila. “Não vale a pena, é? E o que vale a pena? Por que tem que valer a pena?”, eu perguntei, em disparada, contando as moedas. “Quero dizer, sofrer por alguém não vale a pena, mas e aí o que que você faz? Pelo que que a gente vai sofrer, então? Todo mundo quer sofrimento, todo mundo tira dor do cu e exibe, porque é isso que faz a vida rodar.”, continuei. Ele me olhava cheio de defesas e certezas e eu bêbada. “Não adianta. A gente gosta de sofrimento.”, “E o que te fez chegar a essa conclusão?”, ele perguntou, despreocupado, coberto de razão em cada fio de cabelo. “O que? Olha você aí, bebendo essa cerveja barata, usando essa roupinha de cara, bancando o estudado e com esse olhar de dor, esperando só uma boceta chegar pra você poder enfiar a cara e gemer sua dor do abandono de um amor, da falta de carinho da sua mãe, de toda merda que você viveu. Você só tá esperando uma próxima pessoa que tenha pena de você, te cuide um tempo, te ame, qualquer porra que demonstre carinho. É assim, cara. Conta as moedas pra mim, vê se dá pra mais um copo.”. Ele pegou as moedas que pus no balcão, sem deixar de me olhar. “E outra coisa. Se não houver reciprocidade, você some. Você chora e some, porque amor ou alguma merda sem reciprocidade, não serve. Todo mundo quer amar e ser amado, gostar e ser gostado, e até ter os mesmos gostos. Se eu não gosto da sua banda preferida, você nem olha na minha cara. É tudo um jogo muito cansativo. Dá vontade jogar todas as peças foras, queimar essa baralho, mas o mundo não aceita mudar o jogo. É sempre o mesmo, e o mesmo e de novo o mesmo. Obrigada.”, falei, pegando o copo de tequila e virando-o. “Quantos anos você tem mesmo?”, ele perguntou, me olhando com as sobrancelhas crespas. “Por quê?”, eu o olhei. “Como você sabe dessas porras? Quem te disse?”. Eu ri, olhando para o balcão. “Ninguém me disse porra nenhuma. Tá estampado na nossa cara. Queremos jogar sempre o mesmo jogo porque é mais fácil ganhar. Ai, cara, não tô bem. Me leva pra casa.”, me levantei, segurando em seu braço. “Você vai me falar mais sobre isso?”, perguntou, me encarando. “Só se o sexo for bom.”, ri. Ele me olhou meio bobo e me segurou pela cintura, me ajudando a andar. “Para onde vamos? Onde você mora?”, me perguntou. “Como assim, para onde vamos? Pra sua casa, ué. Tô sem casa.”. Ele parou de andar, me olhando, “Você é louca.”. Eu ri e vomitei.”
“Se meu coração não se emociona mais com a presença dele, fiquei me perguntando o que eu estava fazendo ali. Se não sonho mais, não planejo mais, não desejo mais, não espero mais nada, o que eu estava fazendo ali? Não te amo mais, queria dizer a ele, pela primeira vez, sem esperar que ele sofresse com isso. Sempre quis que ele sofresse com esse dia. Mas justamente porque eu não o amo mais, nem quero mais que ele sofra. Aliás, não quero mais nada. Só ir embora. Claro que sobrou um carinho, uma amizade, uma graça. Mas tudo aquilo que era gigantesco, tudo aquilo que parecia ser maior do que eu mesma, que me soterrava, que me transportava pra outra realidade…tinha acabado. Então, por quê? Quero namorar esse homem? Não. Quero casar, ter filhos, envelhecer ao lado dele? Não mais. Nunca mais. Quero dormir com ele, ainda que daquele jeito errado em que minha solidão procura um abraço e a solidão dele procura sei lá eu o quê? Não. Quero reviver uma memória pra me sentir viva, emprestar uma alegria pura do passado? Não, tô fora de continuar sempre no mesmo lugar, me roubando minhas próprias histórias.Quero lamentar a falta de um beijo inteiro, um abraço de verdade, um carinho sem medo e uma atenção entregue sem nenhum egoísmo? Não. Não quero mais mudar ou fantasiar ninguém. Deixa o mundo ser como é. Deixa ele ser como ele é.O que eu queria, que era jogar uma conversa fora com uma pessoa que me conhece tão bem e há tantos anos, eu já tinha conseguido. Matar o tempo, rir da alma. E só. Coisa de no máximo uma hora. Mas eu já estava lá há duas.Quando ele finalmente parou de falar e a minha cabeça parou de gritar, o silêncio me contou um segredo que há muito tempo eu já desconfiava: é preciso coragem pra sair do automático.Quando minha mãe briga comigo, mesmo ela sendo uma senhorinha fofa e eu tendo o dobro do tamanho dela, sinto uma espécie de medo descabido e antigo, como se eu ainda fosse aquele menininha de maria-chiquinha. É o sininho do Pavlov, que fazia o cachorro babar por comida mesmo que não estivesse mais com fome. A mente é automática, viciada, comandada, acostumada.Quando entro em um avião, mesmo eu tendo mais de trinta anos nas costas e milhas acumuladas de muitas viagens, minha mente insiste em me mandar lembranças da mesma menina de maria-chiquinha, que tinha medo de ficar longe da mãe, que passava mal longe de casa, que odiava lugares fechados e altos.E é por isso que quando ele, a pessoa que eu mais amei no mundo (amei sem os bloqueios e sem a amargura que veio depois de tanto amor) me pede pra ficar, eu fico. Se alguma química do meu cérebro obedeceu aquela voz por anos, por que haveria de parar de obedecer agora?Mas ontem, quando finalmente peguei minha bolsa e fui embora, senti um alivio imenso e novo. E combinei que meus pensamentos condicionados não mandam mais nada. Nadinha. Chega de ser comandada pela parte mais sem alma da minha existência. Ainda que encarar um coração vazio seja mais assustador do que obedecer à velhos padrões, o prazer da coragem é sempre muito maior que qualquer susto.”
“Vejo oportunidades aparecendo, mas não dou conta de aproveitar todas. Estico o braço e pego uma, inclino o corpo e agarro outra, mas algumas sempre me escapam. E essas se vão mesmo, não voltam. Quero que a vida se lembre de mim mais vezes e mostre a essa alma já cansada que ainda há simplicidade no ar, ainda há cores nos sonhos, ainda há alegria real em sorrisos.Quero oportunidades acontecendo. Preciso de novas chances.”